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Se fechar os olhos, a voz da professora fica mais alta que o céu. Ribomba-me pelo oco da cabeça. Parte-se-me a louça da cozinha da cabeça. A mãe da minha cabeça vai ficar muito chateada. E coitada da criada, vai ter que arrumar tudo e ouvir os berros que a mãe vai atirar. Mas nem os gritos da mãe são tão altos como os gritos da professora, que, quando tenho os olhos abertos, parece falar normalmente. Mas não consigo forçar as pálpebras a manterem-se abertas. Gritos na minha cabeça, então. Que chatice! Não se devia ser possível entrar assim pela cabeça das pessoas, importunando os silêncios e desarrumando de tal maneira a casa! Ai, já acordaram os meus cachorrinhos! Pobrezitos, estavam a dormir encaixados uns nos outros tão pacificamente... Coitados! A voz da professora despertou-os e agora ganem muito, que dó! Quero fazer o barulho parar, mas só de olhos abertos e bem abertos é que conseguirei pôr-lhe controlo. E ainda por mais, só fala inutilidades, esta professora: vai-me sujando tudo pelo caminho. E as nódoas que as ideias inúteis deixam? A pobre criada bem se vê danada para tentar limpar tudo. Mas nem sempre consegue - demora, esconde-as. Mas às vezes o vento descobre-as dos esconderijos improvisados da criada e lá voltam as nódoas a incomodar. Que nervos! Se eu adormecesse agora desligava a cabeça e, com ela, a casa, a mãe, a criada, os cachorrinhos, o barulho! Tanto que eu queria dormir agora!... Mas não poderá ser tranquilo adormecer numa mesa de sala de aula... E a voz da professora não me dá descanso. Quero ir para casa e dar repouso ao meu corpo e à vida que sou e tenho na cabeça. Estamos todos muito cansados dentro dela.

20/Abril/2016

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Às vezes fico assim: a admirar as letras que pela minha vontade são passadas para o ecrã. Frases (in)dependentes umas das outras que tentam fazer sentido. (É linda, a língua portuguesa.) Adoro esta capacidade humana de brincar com as palavras. Tenho prazer em escrever, é verdade. Então aqui me isolo a escrever para mim. Ás vezes carrego em «publicar» e é como se escrevesse para alguém. Ás vezes escrevo para alguém mas não chego a carregar no tal «publicar». Escrevo e escrevo. Escrevo, como agora, um texto que provavelmente vou apagar uns instantes depois de terminado. É assim que acontece. Inspiração vai, inspiração vem. Mas nem por isso paro de escrever. É isto que gosto de fazer. Por isso faço-o. Na minha maneira ingénua e desprovida de complexidade.

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Poetizar

21.11.13
Há anos que não escrevia um poema. Hoje escrevi. Isso, que pode parecer uma coisa boa, não o é.
Antes escrevia poesia quando estava em baixo. Agora, escrevo textos. Então, afinal, porque escrevi um poema? Para descarregar as minhas emoções, talvez.
Estou em baixo? Pode querer dizer isso, poetizar. Mas não. Acho que quer dizer que estou a entrar em colapso mental.
A poesia é linda, e escrevê-la é das mais belas artes, a meu ver.
Enfim, estou a entrar em depressão.

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Gostava de conseguir abrir a minha mente e escrever aqui um texto todo lamechas. Com emoticons parvos e tudo. A sério.

Quero — preciso — que alguém me compreenda. Mas não posso esperar que alguém o consiga fazer quando nem eu me compreendo. (E não escrevi isto só para ser poético nem nada do género. É a mais pura das verdades.) 

Mas o que eu sei é isto: ficamos mais vulneráveis quando conhecem os nossos sentimentos. Isto fez algum sentido?!

Alguma mensagem oculta? Algum grito de ajuda? Não, juro.

O que eu quis dizer é que mais vale usar uma máscara e sair magoado, do que sair magoado de qualquer forma mas com algum publico a rir. Não estou a fazer sentido nenhum, é o que é.

Enfim. Ás vezes tenho momentos piegas e ridículos destes, que não fazem sentido nenhum. Isto passa-me.

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Este post é um exercício da obra "Escrita em Dia" de Margarida Fonseca Santos. Para mais informações, clique aqui.

 

  "E se não tivesse sido assim?" Essa pergunta assombra-me sem descanso. Desde sempre, a escuridão fora a minha zona de conforto. No vazio da noite conseguia pensar melhor, preenchendo o silêncio com os meus pensamentos, preenchendo o negro com a minha imaginação. Não é por acaso que me chamam a Escritora da Noite; todos os meus romances foram pensados e escritos ao luar.

  Mas agora não. 

  "E se não tivesse sido assim?", a pergunta que dá começo a um rio de pensamentos perturbadores e que parecem não ter fim. Já sou conhecida como assassina, é verdade. Mas isso por por fim à vida de muitos dos meus personagens. Por tua culpa vou ser a assassina fora do papel. A esquisita que escreve sobre amor e que acaba por matar a pessoa que mais ama! Queria dizer-te que não te amo como se te cuspisse as palavras à cara. Mas não posso, estás morto. E fui eu quem te matou. Se te deixar mais feliz, a minha consciência corrói-me todos os minutos de cada dia. Onde antes estava a criatividade está agora a culpa.

  Mas ninguém o sabe.

  Ninguém.

  "Assassino desconhecido" disseram nas notícias sobre a tua morte. (Sempre quiseste aparecer na televisão, ora aí tens.) E agora eu tenho três romances em atraso e a minha editora, tu bem a conheces, não me larga a perna. Mas deixa, ela pensa que é do luto. Até me ria, se a minha conta bancária não estivesse metida ao barulho.

  Odeio-te! Envenenei-te com a maior das facilidades. Mas, e se não tivesse sido assim? E se eu tivesse trocado os copos à ultima da hora e bebesse o veneno no teu lugar? Seria a escritora que morreu sem dar um fim às suas colecções. Já tu, és o jovem com uma morte suspeita cujo autor é desconhecido.

  Ás vezes arrependo-me. Ás vezes sinto a tua falta, é normal, sou humana. Ás vezes gostava que aqui estivesses... Tenho saudades do chá às três da manhã que me fazias enquanto bisbilhotavas o que escrevia... (Nunca te saiu da ideia que escrevia sobre ti...).

  Se, eventualmente, o que fiz for descoberto, vou dizer que tu sabias o que acontecia nos meus livros não-publicados. E ainda hei-de acrescentar na minha voz misteriosa - que tu tanto adoras - que "dois podem manter um segredo se um deles estiver morto."

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O Bicho

26.05.13

  Era uma vez um bicho. O seu nome era Ulisses. Não me perguntem qual era a sua raça ou espécie porque não a sei... digamos que pertencia a um tipo de bichos-sem-raça... 

  Ulisses vivia atormentado com um enorme desgosto: o seu período de hibernação era maior de que qualquer bicho da sua (não-)raça. E sabem porque é que isso era tão mau? Porque quando chegava essa fase em que todos os bichos descansavam em grupos, Ulisses era sempre o último a acordar e quando o fazia, os seus antigos companheiros-bichos já haviam partido. Isso deixava-o muito triste.

  "Afinal não eram meus amigos", pensava ele. "Os amigos são para sempre. Os amigos não abandonam." E continuava a atormentar-se com pensamentos desse género. 

  Entretanto, foi fazendo novas amizades, sempre esperando que estes não o abandonassem, e que fossem amigos para sempre. Quando chegou o tempo dos bichos descansarem, Ulisses temia que os novos amigos fizessem o mesmo que os antigos amigos, mas nada disse. Pensava que, se fossem mesmo seus amigos esperariam por ele. Mas não esperaram. Quando acordou, Ulisses viu que mais uma vez os seus amigos tinham partido.

  "Nunca vou ter amigos verdadeiros. Nunca.", pensava Ulisses vezes e vezes sem conta.

  Mas decidiu tentar outra vez. Uma ultima vez. Conheceu novos bichos-sem-raça e fez novas amizades. Mas desta vez, antes de chegar a tão temida altura do ano perguntou-lhes:

  - Vocês são meus amigos?

  Todos acenaram positivamente.

  - Esperariam por mim mesmo que demorasse muito a acordar?

  Voltaram a acenar positivamente. 

  Então Ulisses adormeceu profundamente com um sorriso no rosto.

 

  Quando acordou novamente ficou desolado, pois estava só. Os seus amigos tinham-no abandonado. Mas foi ao sair do ninho que viu então que os seus amigos tinham mantido a promessa e voavam juntos, ali perto. "Esperaram mesmo. Tenho amigos. Amigos a sério!" pensou e largou num voo com eles.

 

  Enquanto voava percebeu que a amizade era feita de comunicação e que, com força de vontade, tudo estava ao seu alcançe.

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Sobre escrever

19.05.13

Palavras inocentes. Palavras que sofrem. Eu faço-as sofrer, usando-as aqui e ali, bem e mal. Escrevo sem consciência do que escrevo. O meu cérebro ignora o seu significado para quem as possa ler, e foca-se apenas no significado que têm para mim. O meu coração sente-o. Quando leio o que escrevo volto ao momento em que as escrevi e sinto novamente as sensações prematuras de fascínio e deleite. Para quem lê, há a estreia das palavras no cérebro; ás vezes tentando descodificar as palavras e perceber um significado obscuro ou deformado, quando o que à sua frente está escrito é bem explícito e descodificado. Escrevo para mim mas partilho com os outros. Leio usando a capa de Pedro Caetano Carvalho e só peço que leiam o que escrevo usando a capa que tem o vosso nome. Boas leituras.

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Tempo

16.03.13

Gostava de ter mais tempo. Gostava que o mundo parasse e eu tivesse, vá... três horas só para mim. Ás vezes quero passar tempo só comigo mesmo e não posso. É nessas alturas que eu gostava que um botão para parar o tempo existisse. Não quero ser mau, mas odeio as pessoas. Ah, e odeio-me a mim também. Mas também amo as pessoas. E, sinceramente, gostava de me amar a mim mesmo mais. Agora a sério, alguém pode por favor criar uma espécie de botão-que-para-o-tempo? Não? Era o que eu pensava.

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Ultimamente tenho tido ideias para escrever. Infelizmente, são ideias estúpidas. Ainda assim, dá-me gosto escrevê-las. Tive uma ideia estúpida que não descanso enquanto não escrever, nem que seja aqui. Não te censuro se não a leres, é estúpida. Mas, aviso-te já, se a leres, não a leves a sério, e mantém a mente aberta - porque, e repito, é estúpida. Ainda assim, boas leituras.


A família vivia numa casa isolada na floresta. Eram um casal e uma idosa. As mentes do casal que cuidava da idosa eram fechadas, e a idosa, coitada, tinha poucos pensamentos, e os que tinha eram vagos e infantis...

Poucos eram os que conheciam a existência daquela pequena família.

A mulher, Valentina, nos seus quase quarenta, tinha um sonho.

O homem, Nicolau, já nos seus quarenta, partilhava o sonho com a sua esposa.

A idosa, Aurora, vivia na sua cadeira de baloiço sem se pronunciar e babava-se, babava-se muito.

Valentina e Nicolau queriam ter um filho. Era esse o seu sonho. 

Valentina, com vergonha, perguntou certo dia a uma amiga, na cidade:

- De onde é que vêm os bebés?

Depois de umas gargalhadas, a amiga respondeu:

- Vêm com as cegonhas! 

Quando chegou a casa, Valentina contou ao marido a sua descoberta e nesse mesmo dia foram à procura de cegonhas, de espingarda às costas. Assim que viu uma, a mulher gritou ao marido e este apertou o gatilho, explodindo com a cabeça do animal, que caiu no chão, fazendo uma poça de sangue ao seu redor. 

Determinada, Valentina puxou da faca e abriu a cegonha ao meio. Revolveu, insistentemente, os órgãos quentes e líquidos do animal e não se deparou com bebé algum. 

Raivosa, voltou à cidade, ainda manchada de sangue e de faca em punho. Tocou à campainha da casa da amiga e, com a faca escondida atrás do corpo, esperou com um sorriso sádico. Quando a amiga apareceu, não desconfiou de nada e, assim que se aproximou para a cumprimentar com um beijo na bochecha, Valentina espetou a faca no seu coração, enterrando-a com força. Deixou-a no chão e foi-se embora, levando consigo a faca e o sangue da cegonha e da amiga que a enganara e lhe dissera que as cegonhas traziam bebés.

Chorou muito, enquanto dava o comer à boca da idosa. 

- Coma, coma, mamã. É canja de cegonha.

 

*

 

No dia seguinte, foi Nicolau quem foi à cidade procurar informações sobre crias.

Perguntou a um amigo, na taberna:

- De onde é que vêm os bebés?

Este, entre soluços respondeu:

- Da pinta da m'nha m'lher!

Ao ouvir isto, Nicolau, saiu da taberna, sóbrio e decidido. Foi até à casa do seu amigo e, quando a sua mulher foi para lhe abrir a porta deu-lhe um encontrão na cabeça, deixando-a inconsciente. Sabendo ele que "pinta" significaria o sexo da mulher, enfiou a mão na vagina da mulher e puxou pelos órgãos escorregadios, espalhando sangue e tudo menos bebés pelo chão. Revoltado, voltou ao encontro de sua mulher e contou-lhe o que acontecera. Esta chorou mais um pouco e agarrou-se a ele.

- A tua mãe já almoçou? - perguntou o marido.

E, como que por magia, surgiu uma ideia a Valentina.

- A minha mãe! A minha mãe é minha mãe! Logo, eu sou filha dela!

Nicolau achou que a mulher era doida por instantes e pediu que se explicasse. Esta ignorou-o e correu até beira da sua mãe.

- Mamã! Diga-me, por favor! De onde é que vêm os bebés!? 

Silêncio.

- Mamã! De. Onde. É. Que. Vêm. Os. Bebés?

Silêncio.

- Mamã! De onde é que eles vêm!? Responda!

Só se ouviam os ossos da idosa a chocar, à medida que a sua filha a abanava e esperneava contra ela. O ultimo barulho que se ouviu antes do longo silêncio que se seguiu foi o do osso do pescoço da idosa a romper. E a baba a escorrer-lhe da boca.

 

*

 

Assim que o cadáver da idosa foi enterrado no quintal, o casal partiu para a cidade, onde se dividiu para tentar saber como é que teriam um filho. 

A mulher perguntou a outra amiga, e o homem perguntou a outro amigo:

- De onde é que vêm os bebés?

A amiga respondeu:

- Dos testículos do teu marido, querida.

E o amigo respondeu: 

- Da barriga da tua esposa, homem! 

Correram para casa.

O momento que se seguiu foi terrível. A mulher tentou esfaquear o homem nos testículos. E o homem tentou esfaquear a mulher na barriga. Acabaram por se matar um ao outro naquela luta pelo seu sonho. Semanas depois, foram encontrados pela polícia, que os procurava por duplo homicídio. 

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A excitação corroi-me os sentidos, combatendo com o medo que decidiu, também ele, apoderar-se de mim. A excitação e o medo. Excitado e ansioso pelo amanhã. Excitado pela felicidade, e o calor confortável de quem está ansioso a envolver-me o coração. E o medo. O medo da não-felicidade. O medo de um não-amanhã feliz, confortável, concretizável.

A espera tem sido insuportável.

"O tempo passa devagar quando se espera."

E, quando chegar: puff!, e já acabou.

"O tempo passa depressa quando queremos viver cada instante."

Depois o vazio. Nenhuma motivação.

"O tempo passa ainda mais devagar quando não se espera nada."

 

Citações de José Luís Peixoto, em "Uma Casa na Escuridão".

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